sexta-feira, 2 de março de 2012

ASPECTOS APÓCRIFOS DO CRISTIANISMO: DAS ORIGENS AOS MANUSCRITOS DE QUNRAM



Aspectos Apócrifos do Cristianismo: das Origens aos Manuscritos de Qunram
José Aldeni Marinho de Sousa
Licenciado Pleno em Ciências da Religião / UVA

SUMÁRIO

Introdução

Capítulo I – Os Escritos Apócrifos nos Primeiros Anos de Cristianismo

1.1. Os Evangelhos Apócrifos Fragmentados
1.2. Breve Comentário Sobre a Formação do Cânon Bíblico
1.2.1 O Cristianismo em Múltiplas Variações
1.2.2 Sinais de Diversidade Sobre Jesus Também nos Canônicos
1.3. Protocanônicos, Deuterocanônicos e Pseudepígráfos
1.4. O Valor Teológico dos Apócrifos no Novo Testamento

Capítulo II – As Doutrinas que Permeavam os Escritos Apócrifos Possuem Alto Teor
Gnóstico

2.1. As Heresias Fundadas no Legalismo Judaizante
2.2. Heresias Provenientes da Filosofia Gnóstica
2.3. O Gnosticismo nos Dias Atuais

Capítulo III – A Retomada da Discussão dos Livros Apócrifos com a Descoberta dos
Manuscritos de Qumran

3.1. Os Essênios
3.2. A Descoberta dos Manuscritos
3.3. O Contexto Histórico dos Manuscritos do Mar Morto
3.4. A Relação dos Manuscritos do Mar Morto com o Cristianismo Primitivo
3.5. A Presença da Influência dos Apócrifos nos Dias Atuais

Capítulo IV – A Biblioteca de Nag Hammadi

4.1. Textos Principais da Biblioteca de Nag Hammadi4.2. O Evangelho de Tomé
4.3. O Evangelho de Maria Madalena

Conclusão
Bibliografia

INTRODUÇÃO

Escritos entre o período inter-testamentário e os primeiros séculos do Cristianismo, os apócrifos sempre confundiram as primeiras comunidades cristãs por causa de algumas doutrinas estranhas e também por receberem autoria de personagens bíblicos famosos. Quando a Igreja resolve definir o cânon das Sagradas Escrituras a partir do século IV, pouco a pouco os apócrifos vão caindo no esquecimento até desaparecerem. Contudo, nas últimas décadas têm sido descobertos diversos desses escritos que, mesmo não pertencendo à Bíblia, mostram as divergências da época e esclarecem detalhes não apresentados pelos livros canônicos.

Baseado nisso, resolve-se elaborar uma pesquisa com o tema Evangelhos Apócrifos. O objeto de estudo é: “Aspectos Apócrifos do Cristianismo: Das Origens aos Manuscritos de Qumran”.

O conjunto desse trabalho tem como intenção principal mostrar que a História do Cristianismo e sua doutrina possuem capilaridade e sofrem influências de várias correntes diferentes. Portanto, ele é mais rico, complexo e misterioso do que os próprios cristãos são levados a supor. Procurou-se mostrar também a importância da Escritura Apócrifa para a História do Cristianismo. Mostrar as doutrinas nos primeiros anos de Cristianismo, as heresias que permeavam o pensamento cristão primitivo. Não ficaram de lado, as doutrinas gnósticas e movimentos heréticos judaizantes e outras provenientes da Filosofia Grega.

As razões que motivaram a realização dessa pesquisa se baseiam na idéia de que se, por um lado os apócrifos não possuem a verdadeira doutrina de Cristo e de sua Igreja, por outro lado têm grande valor histórico, pois demonstram as correntes ideológicas (religiosas e morais) do período em que foram escritos.

Os apócrifos do Novo Testamento apresentam diversos aspectos da era pós-Cristo. Algumas são conformes com o ensinamento ortodoxo da Igreja como, por exemplo, a virgindade e a assunção de Maria, a descida de Cristo aos infernos e a divindade de Cristo. Outros esclarecem pequenos detalhes que não foram abordados pelos Evangelhos canônicos, como o nome dos reis magos, os nomes dos pais de Maria, o nome do soldado que traspassou a lança em Jesus, a morte de São José na presença de Jesus, a apresentação de Maria no Templo de Jerusalém e a sua morte assistida pelos apóstolos, alguns outros milagres de Jesus, etc.

O fascínio pelos apócrifos é inevitável. A própria etimologia explica boa parte da escolha do tema. Apócrifo é uma palavra grega (apócryphos) que significa escondido, secreto, oculto. Sua natureza intrínseca sugere investigação. Decorre daí a curiosidade que é típica do ser humano. Entretanto, não é pela mera e simples curiosidade que se debruça sobre o tema. Sua relevância histórica exige uma análise detalhada, séria e profunda, embutida do espírito crítico que um assunto desta magnitude merece. A sua envergadura teológica é  de grande monta. Não dá para ficar alheio, não estudar, não investigar. Desde agosto de 2000 quando a Revista Superinteressante veiculou uma matéria intitulada: “A Doutrina do Deserto”, discorrendo sobre a vida dos Essênios e referindo-se à descoberta em 1947 em cavernas próximas ao Mar Morto de 813 manuscritos redigidos por este grupo religioso entre 235 a. C. e o ano 68 de nossa era, que não se parou de coletar matérias de revistas, comprar livros, pesquisar na Internet, assistir a filmes como Matrix e Stigmata.

Como cientista da religião avalia-se que estes manuscritos e outros textos apócrifos podem trazer benefício para a reflexão teológica e para a espiritualidade de muitos. Decorreu deste pensamento, a escolha do tema, para divulgar, levar ao conhecimento de outras pessoas a existência de tais textos e que eles podem contribuir bastante para compreender Jesus Cristo. Alguém poderá refutar estes argumentos dizendo que o público em geral não conhece sequer a canonicidade de outros textos, como podem, então mostrar interesse por outros ditos “falsos”. A resposta não demanda grande esforço de elaboração uma vez que todos gostam do proibido e este diz respeito ao homem mais influente do mundo, muitos buscarão neles respostas negadas há séculos. A verdade não é propriedade de pessoas ou uma instituição, ela é um bem comum da humanidade. Por isso se pretende revelar os “apócrifos”.

Portanto, a importância de se explorar esse tema é o valor histórico que possibilita ao leitor perceber um pouco melhor o contexto sócio-histórico e cultural do período intertestamentário e os primeiros séculos de Cristianismo.
Para o desenvolvimento desta Pesquisa a mesma foi dividida em quatro capítulos para uma melhor compreensão:

Capítulo I - Os Escritos Apócrifos nos Primeiros anos de Cristianismo.Este capítulo constará de um levantamento minucioso sobre os escritos apócrifos, seus supostos autores e as prováveis datas em que foram escritos. Este será demonstrado que os anos de confecção destes textos foram de uma terrível indefinição religiosa, momento de insegurança quanto ao presente e, principalmente, ao futuro. A humanidade não vislumbrava perspectiva de conforto material tampouco de alento espiritual. Havia proliferação de heresias, a intolerância religiosa atingia seu ápice e o medo beirava o paroxismo.

Capítulo II - As Doutrinas que Permeavam os Escritos Apócrifos Possuíam Alto Teor Gnóstico. Neste capítulo será feita uma breve análise de doutrinas consideras heréticas, o que poderá ter sido estopim para a eclosão de acirradas polemicas entre os primeiros cristãos. Mostrar-se-á vários grupos “heréticos”. Eis alguns: os Ebionitas: professavam a pobreza e eram vegetarianos; Sabelianos: partidários de Sabeliuns, negavam a trindade; naassenos: seita gnóstica que adorava a serpente; Docetas: ensinavam ser apenas aparente a encarnação de Cristo, defendiam o Encratismo, a abstinência da carne, condenavam o matrimônio, etc.; os gnósticos: diziam ser a matéria a origem do mal, logo, Deus não poderia tê-la criado.

Capítulo III - A Retomada da Discussão dos Livros Apócrifos com a Descoberta dos Manuscritos de Qumran. Neste capítulo será avaliada a importância arqueológica, histórica e teológica dos manuscritos do Mar Morto encontrados em 1947 por pastores beduínos. O achado fez a Igreja Católica repensar sua postura, precisou quebrar arestas religiosas e doutrinárias. O mundo despertou para uma nova visão de Jesus. Será feita uma tentativa de interpretação do significado e a conseqüente contribuição que este novo universo escritural pode proporcionar às pessoas no mundo conturbado e violento no contexto da atual conjuntura globalizante.

Capítulo IV - A Biblioteca de Nag Hammad. Neste capítulo mostrou-se a descoberta em 1945 de 13 (treze) códices de papiro contendo Evangelhos, textos literários e filosóficos. O achado foi feito por camponeses.

Na continuidade do trabalho foram elencados os principais textos de cada códice. E, por fim, fez-se um comentário sobre o Evangelho de Maria Madalena e Evangelho Segundo Tomé. Ambos continham teor gnósticos, mas sua sabedoria e importância são inegáveis.
Espera-se que esta Pesquisa possa despertar o interesse pela investigação e a descoberta faça crescer quem se permitir, perscrutar os grandes mistérios que ainda hoje permeiam a Bíblia.

CAPÍTULO I
OS ESCRITOS APÓCRIFOS NOS PRIMEIROS ANOS DE CRISTIANISMO

Os Livros Apócrifos constituem quatro grupos: a) Evangelho; b) Atos; c) Epístolas; d) Apocalípticos. O grande fascínio que estes textos exercem as pessoas está relacionado com fato deles revelarem muito sobre Jesus. Os Evangelhos canônicos deixam muitas lacunas sobre a vida deste homem que andou a face do planeta. Cristãos do muito inteiro estão ávidos por novas informações, passagens reveladoras, embora a Igreja não os tenha como legítimos.

Segundo alguns estudiosos existem cerca de 112 livros apócrifos, sendo 62 em relação ao primeiro Testamento e 60 em relação ao segundo (LINCOLN, 2001b). Como objeto desta pesquisa foca-se no segundo, farei um breve levantamento dos textos mais expressivos seguindo os grupos relacionados. O que está na íntegra elencados pelo Pe Lincoln Ramos (2001b, pp. 16-17).

● Evangelhos:
- Evangelho Segundo os Hebreus, fim do primeiro século d.C.;
- Evangelho dos Ebionitas, de origem heréticas, meados do século II d.C.;
- Evangelho Segundo os Egípcios, meados do século II d.C., de inspiração gnósticas;
- Evangelho de Pedro, meados do século II d.C., de tendência docetista;
- Evangelho de: Mateus-Filipe-Tomé-André-Bartolomeu-Barnabé, do segundo século d.C., de fundo herético;
-Proto-Evangelho de Tiago, do segundo século d.C.

● Atos.
- Atos de João, entre 150 e 180 d.C.;
- Atos de Paulo, entre 160 e 170 d.C.;
- Atos de Pedro, fim do segundo século d.C.;
- Atos de Tomé, terceiro ou quarto século d.C.

● Epístolas:
- Terceira Epístola aos Coríntios, segundo século d.C.;
- Epístola aos Laodicenses, fim do segundo século d.C.;
- Carta dos Apóstolos, cerca de 180 d.C.;
- Correspondência entre Sêneca e São Paulo, quarto século d.C.

● Apocalipses:
- Apocalipse de Pedro, meados do século segundo d.C.;
- Apocalipse de Paulo, 380 d.C.;
- Sibila Cristã, terceiro século em diante da era cristã.

1.1. OS EVANGELHOS APÓCRIFOS FRAGMENTATOS

O evangelista João lembra enfaticamente que: “fez Jesus, em presença de seus discípulos, muitos sinais miraculosos que não estão neste livro” (Jo 20:30). Com efeito, fica claro que, de fato muitos textos foram produzidos, por conseguinte, utilizado em cerimônias até serem excluídos em disputas conciliares como veremos adiante.

Devida à exclusão, à falta de acondicionamento adequado e utilização, diverso textos perderam-se e outros fragmentaram-se. Segundo Lincoln ramos, os fragmentos que nos restam podem ser classificados em três grupos:

- Fragmentos de Evangelhos apócrifos que se perderam. São conhecidos somente através de citações feitas por autores eclesiásticos dos primeiros séculos. Em alguns não aparecem transcrições textuais, mas somente referência que comprovam sua existência e, às vezes, refletem opiniões nelas contidas;

- Fragmentos conservados em papiros. Com as pesquisas e escavações realizadas principalmente a partir do século XIX, encontraram-se e continuam sendo encontrados papiros que contêm partes de evangelhos apócrifos. Alguns, danificados pelo tempo, apresentam lacunas irremediáveis ou palavras semidestruídas que levam a tentativa de reconstituição;

- Ágrafos e Lógios. Nem todos os papiros encontrados encerram partes de evangelhos completos. Em muitos figuram apenas frases soltas ou sentenças referentes à vida ou aos ensinamentos de Jesus. Formam coleções ou antologias de sentenças independentes (RAMOS, 2001b, p. 20).

A palavra ágrafo, significa “não escrito”. São palavras ou frases atribuídas a Jesus, mas não estão escritas nos evangelhos do cânon bíblico. Em Atos há uma sentença bastante ilustrativa, quando São Paulo escreve: “tenho vos mostrado em tudo que, trabalhando assim, é necessário socorrer os enfermos, recordando as palavras do próprio Senhor Jesus: mas bem-aventurada coisa é dar do que receber” (Atos 20:35).


É importante lembrar que estas palavras não correspondem a nenhuma passagem dos sinóticos, nem de João, mas consideram-se revestida de canonicidade. Quanto aos lógios, cujo significado etimológico é “palavra”, “sentença”. Representa na literatura cristã “palavras de Cristo”. O evangelho segundo Tomé, apenas para citar é completo de 114 lógios.

1.2. BREVE COMENTÁRIO SOBRE A FORMAÇÃO DO CÂNON BÍBLICO

Antes de continuar abordar sobre os apócrifos, faz necessário reparar-se à formação do cânon. Não será aqui, feito um estudo minucioso a respeito. Porém, o escopo de tal propósito, é clarear um pouco o tema. Há necessidade de remover incompreensões ou noções errôneas acerca da Bíblia. Uma primeira remoção diz respeito ao caráter sacral dela. Outra concepção errônea é, de acordo com Gabel e Wheeler, “a compreensão da Bíblia como um documento único, completo e integral, não modificado e imutável, que transcende as condições da vida terrena” (1993, p. 73). Compreendamos em definitivo, que a Bíblia foi escrita por seres humanos agindo na história. Os esforços redacionais da Bíblia foram feitos por muitas pessoas diferentes - cerca de 40, segundo a tradição -, separados no tempo e no espaço. Os primeiros escritos bíblicos surgiram nos primeiros anos do período monárquico do povo hebreu, por volta do ano 1000 a.C.. Todavia já existiam coletâneas heterogêneas de escritos, que tinham sido confeccionados antes e transmitidos oralmente por seguidas gerações.

A palavra “cânon” significa “cana”, kangh em hebraico. A “cana” era um instrumento usado para medidas precisas. Ficou então, sendo aplicada como padrão nas medições. Depreende-se que o cânon bíblico é a medida ou a lista oficial de livros divinamente inspirados, contendo, portanto, a palavra de Deus. Os judeus, por volta de 190 a.C., já listavam a Tanak: a Torah (Lei); os Nebim (Profetas) e Ketubim (Escritos ou Hagiógrafos). Este cânon hebraico está baseado na tradição do povo judeu.

A Bíblia, que foi escrita nas línguas hebraico e aramaico, teve sua primeira tradução em 285 a.C.. A Septuaginta, como ficou conhecida, foi direcionada para os judeus que foram espalhados por várias nações, uns 160 anos depois da volta de Neemias do cativeiro babilônico. Os setenta redatores de Alexandria seguiram uma tradução livre, fugindo muitas vezes do original. Esta tradução foi a base para a Vulgata, versão latina da Bíblia. Jerônimo era um dos homens mais cultos de seu tempo. No ano 383 d.C., ele traduziu toda a Bíblia, incluindo-se o segundo Testamento. Esta versão foi proclamada autêntica pelo Concílio de Trento (1545-1563), que proibia qualquer tradução para outros vernáculos.

As disputas mais acirradas, no entanto, acerca da autenticidade, inspiração divina e canonicidade dos escritos bíblicos, deu-se em 325 d.C., no concílio de Trento, quando foi realizada a primeira separação entre canônicos e apócrifos.
Para Tricca citado por Roste,

muitos chamados textos apócrifos já fizeram parte da Bíblia, mas ao longo dos sucessivos concílios acabaram sendo eliminados. Houve os que depois viriam a ser beneficiados por uma reconsideração a tornaram a partilhar a Bíblia. Exemplos: os livros da Sabedoria, atribuído a Salomão; o Eclesiástico ou Sirac, as Odes de Salomão, Tobias, Macabeus e outros mais. A maioria ficou definitivamente fora como o famoso livro de Enoch, o livro da Ascensão de Isaías e os livros III e IV dos Macabeus (1980, p. 30).

Deduz-se facilmente que estas “guerras” teológicas resultaram em perdas significantes das Sagradas Escrituras, que muito embora, ainda existam, não desfrutam da devida credibilidade e do merecido prestígio.

1.2.1. O CRISTIANISMO EM MÚLTIPLAS VARIAÇÕES

A época de Jesus está eivada de situações políticas, sociais, econômicas e históricas bastante delicadas. A Palestina vivia sob o jugo de pesados impostos exigidos pelos romanos, as pessoas viviam sob a tutela do medo e da desesperança. Diante de injustiças sociais, o povo sentia-se impotente. Havia surgido vários “Messias”, que trariam dias melhores de fartura, paz, justiça, alegria e esperança. No entanto, nada mudava. O anseio popular por dias melhores era frustrado por seguidos reveses.

No campo religioso, não era diferente. O judaísmo havia-se fragmentado em seitas: Farisaísmo, Essenismo, dentre outras correntes como os Saduceus e Zelotes propunham saídas diferentes para a crise. Todavia Jesus já palmilhava aquelas terras sofridas. Seu ministério terreno foi brevíssimo, cerca de três anos, mas foi o suficiente para suscitar na alma daquele povo, vítima de seguidas espoliações, a renovação da esperança.

Mas após o ano 33 d.C., muitas indefinições e caos tomaram conta das pessoas. Jesus não havia deixado nada escrito. Farias questiona se há cristianismo ou cristianismos de origem. Para Farias “do esforço coletivo para traçar o perfil do Mestre surgiram vários cristianismos, isto é, vários modos de interpretar Jesus” (2003, p. 10).

Farias faz uma classificação segundo a linha mestra de pensamento, a comunidade ou a pessoa que o representa (2003, p. 11):

- Cristianismo dos ditos de Jesus (Fonte Quelle, Tomé);
- Cristianismo da cura e do caminho (Marcos);
- Cristianismo do Jesus filho de Deus, Messias e seguidor do Judaísmo (Mateus);
- Cristianismo da salvação para judeus e não-judeus (Lucas);
- Cristianismo do discurso teológico elaborado e dos sinais (João);
- Cristianismo do Jesus histórico e revolucionário (Tiago, Tomé);
- Cristianismo do Jesus ressuscitado e glorificado (Paulo);
- Cristianismo do Jesus histórico que mora dentro de cada um de nós de forma integrada e que nos convoca a viver e testemunhar a harmonia (Maria Madalena);
- Cristianismo Gnóstico, que mostra Jesus, o ressuscitado que traz a salvação (Tomé, Maria Madalena, Filipe);
- Cristianismo da apostolicidade, que indica a organização comunitária e hierárquica da comunidade para garantir a pregação da boa-nova do Evangelão (Atos dos Apóstolos e cartas de Paulo).

“Somos herdeiros desses vários tipos de Cristianismo” (FARIAS, 2003, p. 11). Estas diversas manifestações de fé têm explicação num fato importante. Poucos atentam para uma questão simples: não eram apenas os doze apóstolos que seguiam Jesus. Havia muitos grupos de pessoas que se espalhavam pela região. Estas pessoas não apenas reproduziam os ensinamentos que recebiam. Cada grupo, de forma dinâmica e criativa, apresentava doutrinas um pouco diferentes da original. Isto não deve ser visto como deturpação da sabedoria de Cristo, mas demonstra a criatividade na expressão peculiar da fé individual ou grupal.

Para o professor de teologia da PUC de São Paulo, Pedro Vasconcelos, “no início, várias visões diferentes de Jesus conviviam simultaneamente. Só depois de séculos a Igreja começou a considerar umas como ortodoxas e outras como heréticas” (apud, MONTENEGRO, 2004, p. 50). Por isso muitos estudiosos vislumbram nos apócrifos importantes instrumentos para, nesta vasta diversidade, compreender melhor a pessoa de Jesus.

1.2.2. SINAIS DE DIVERSIDADE SOBRE JESUS TAMBÉM NOS CANÔNICOS

Embora esta discussão sobre a diversidade doutrinária do cristianismo, possa soar em tom levemente herético, pode-se respaldá-la nos próprios canônicos. E tudo isto não é necessariamente ruim. Julgar não constitui escopo deste trabalho; mas estas comparações são necessárias e sua função é esclarecer melhor o que estou a expor.

Os Evangelhos canônicos já apresentam visões diferentes de Jesus. Em Mateus ele é semelhante a um Moisés que retorna com seus longos discursos e cujas ações eram o cumprimento das profecias do Antigo Testamento. O Evangelista Marcos o apresenta como uma personalidade muito ativa, realizador de milagres e em permanente conflito com o poderio opressor do Império Romano. Um homem bom, misericordioso e preocupado com a situação humana é como Lucas o descreve para a posteridade. João, por sua vez, retrata-o aprofundando os seus aspectos propriamente espirituais. Estes são elementos suficientes para uma abordagem profunda a respeito dessa diversidade doutrinária. Se em quatro evangelhos canônicos, já aparecem tantos elementos doutrinários, imagine-se com a adição das centenas de páginas apócrifas.

Tudo isto demonstra a riqueza do/s cristianismo/s. Com todo este estudo pode-se, refutar a existência de um cristianismo “verdadeiro”, em detrimento das demais manifestações que são conhecidas e estão vindo à tona, principalmente com os manuscritos encontrados em Nag Hammadi, no Egito em 1945 e em Qumran, dois anos depois.

1.3. PROTOCANÔNICOS, DEUTEROCANÔNICOS E PSEUDEPÍGRAFOS

Além da distinção fundamental entre canônicos e apócrifos, convém lembrar que existe uma categoria interessante e que não pode ficar de fora, sob pena de prejudicar a compreensão global do tema ora tratado. Trata-se dos chamados Protocanônicos (protos = primeiro), dos Deuterocanônicos (déuteros = segundo) e dos Pseudepígrafos (pseudés = falso e apigrpné = título, inscrição). No século XVI, Sixto de Sena, utilizou pela primeira vez esta distinção. Os protocanônicos são aqueles livros cuja canonicidade não foi posta em dúvida. Quanto aos deuterocanônicos, estes fazem parte de uma segunda lista oficial, depois que alguns questionamentos a respeito de sua autenticidade foi superada.

● Deuterocanônicos do Antigo Testamento

Os deuterocanônicos do Antigo Testamento só foram conservados na tradução grega, embora se acredite que foram escritos em hebraico ou aramaico. Não há portanto, originais manuscritos. São eles: Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc, Primeiro e segundo Livros de Macabeus, os sete últimos capítulos de Ester (10:4-16:24 na Vulgata) e três passagens de Daniel (3:24-90; 13 e 14).

● Deuterocanônico do Novo Testamento

O Novo Testamento também possui seus livros que foram incluídos na lista oficial bem mais tarde e só foram confirmados no concílio de Trento no século XVI. Os livros relacionados a seguir são deuterocanônicos: Carta aos Hebreus, Carta de São Tiago, Segunda Carta de São Pedro, Segundo e Terceira Carta de São João, Cartas de São Judas e Apocalipse.

● Pseudepígrafos

Pseudepígrafo significa etimologicamente: “que tem título falso”. Esta polêmica tem origem na divergência entre o cânon católico e o judaico. O cânon protestante seguiu o hebraico, ou seja, somente os livros cujo original hebraico se conservou. A Igreja Católica aceita os livros cujos originais hebraicos e aramaicos se perderam e só restou a tradução grega. São os deuterocanônicos do Antigo Testamento. Por esse motivo, católicos e protestantes não fazem uso do termo apócrifos com o mesmo sentido.

Para os protestantes, apócrifos são os livros que os católicos chamam de deuterocanônicos e aos apócrifos do Antigo Testamento chamam de pseudepígrafos.

1.4. O VALOR TEOLÓGICO DOS APÓCRIFOS NO NOVO TESTAMENTO

Ramos (2001b, p. 17), considera que cada livro apócrifo deve ser julgado separadamente. Cada escritura oferecerá uma visão geral dos méritos ou falhas.
Ramos enumera os valores:

das narrativas apresentadas decorrem idéia teológicas fundamentais. Embora nem sempre explicitamente enumeradas, refletem as convicções vigentes naquela época e contêm elementos da fé cristã. Assim a divindade de Cristo e a virgindade de Maria (nos apócrifos da infância), a descida de Cristo aos infernos (nos Evangelhos sobre paixão-morte-ressurreição), a assunção de Maria (nos apócrifos sobre a Dormição = Morte de Maria). Alguns dos apócrifos, principalmente dos mais antigos, nos transmitiram pormenores apreciáveis, que se perpetuaram na liturgia e na arte. Assim os nomes dos pais de Maria, Joaquim e Ana; a apresentação de Maria no Templo; a morte de São José, assistido por Maria e Jesus; a morte de Maria, tendo os apóstolos em torno do leito; o nascimento de Jesus numa gruta e a presença do boi e do jumento; o nome dos três reis magos (Gaspar, Baltasar e Belchior) – parêntese meu -; o nome de Longino, o soldado romano que transpassou o lado de Jesus com a lança. A história de Verônica e seu véu, etc. (2001b, pp. 17,18).

O surgimento de heresias como estes “erros” são chamados, na verdade é uma contraposição que é feita do cristianismo que se afirmou como “verdadeiro”.

Os apócrifos precisam receber a atenção devida para que seja promovida a recuperação do seu real valor para os cristãos, para o fortalecimento da fé de alguns e até mesmo como fonte de cultura, inspiração artística e riqueza histórica.

CAPÍTULO II
AS DOUTRINAS QUE PERMEAVAM OS ESCRITOS APÓCRIFOS POSSUEM ALTO TEOR GNÓSTICO

O contexto no qual a produção escritural, tanto a que se tornaria mais tarde canônica, como a que seria proscrita do cânon bíblico tornando-se conhecida como apócrifos, era bastante conturbado do ponto de vista espiritual. O cristianismo ainda não se afirmara e estava imbuído de elementos de cunho judaico, no que tange à organização, às doutrinas e práticas religiosas. Como foi dito anteriormente, Jesus não havia deixado um legado escritural. Os primeiros evangelhos foram escritos anos após sua morte. O Apóstolo Paulo, para muitos, o fundador do cristianismo tal como o conhecemos, começara sua obra missionária cerca de 13 anos após a crucificação de Jesus. Não havia, portanto, uma estrutura sistemática, conceitos bem definidos, registros históricos confiáveis sobre a vida do Nazareno.

Estas injunções todas são marcas dos primeiros anos de cristianismo. O mundo greco-romano, mesmo em plena fase de decadência, ainda estava habituado às formalidades do pensamento filosófico e às intricadas formulações baseadas em princípios racionais bem delimitados.

Por isso a doutrina da igreja primitiva viu-se ameaçada por idéias que então surgiam. Para Cairns: “os convertidos à fé cristã vieram ou do legalismo judaico ou do ambiente pagão da filosofia grega” (1995, p. 78). Existiam como foi  mostrado no capitulo I, que não existia apenas uma forma de cristianismo. Mostrou-se ainda que havia várias comunidades e que cada comunidade utilizava-se de escritos sagrados (Evangelhos, Atos, Epistolas e Apocalipses), que mais tarde foram banidos do cânon. Alguns destes grupos, pela natureza de sua doutrina eram considerados “heréticos”. A corrente herética predominante era o gnosticismo. Porém existiam também heresias legalistas, as quais exigiam dos gentios a prática de cerimônia e ritos judaicos, pois Cristo era apenas um fiel cumpridor da lei mosaica. Mesmo após o Concílio de Jerusalém (42-50 d.C.) haver abolido estas exigências. O que ameaçava com mais veemência, eram as chamadas heresias filosóficas que descreveremos à frente.

Antes, definamos o que para o cristianismo é heresia, e também para outras religiões: “considera-se heresia a postulação de idéias contrárias à doutrina adotada e difundida pelas autoridades eclesiásticas” (CACP). Para uma ampliação do nosso entendimento, saber a respeito dos seguidores destas “idéias contrária à doutrina”. O Código do Direito Canônico – legislação oficial da Igreja Católica – considera hereges os indivíduos batizados que negam de modo pertinaz verdades que a Igreja ensina como reveladas por Deus. Define ainda como cismático o cristão que recusa a submissão à hierarquia eclesiástica e, direta ou indireta, ao Papa. Qualifica, enfim, como apóstata aquele que renega totalmente sua fé (CACP).

2.1. AS HERESIAS FUNDADAS NO LEGALISMO JUDAIZANTE

As heresias legalistas foram combatidas no Concílio de Jerusalém. Neste Concílio foi decidido que os gentios ficariam livres das exigências cerimoniais e ritualistas da lei judaica para serem salvos. Esta posição, chamada de judaizante, provocou certa polêmica nos primeiros séculos do Cristianismo.

Não obstante, constituir uma ameaça à fé doutrinal que nascia, o legalismo não chegou a solapar os novos preceitos. Algumas seitas surgiram como os ebionitas e os naasenos. Ambas, tinham fundo gnóstico de suas crenças, todavia, possuía raízes no legalismo judeu. A corrente que mais continha elementos judaizantes era a seitas dos ebionitas.
Os “ebionitas”, cujo nome provém de ebyon, do hebraico que significa “pobre”, professavam a pobreza e eram adeptos do vegetarianismo. Para eles, Jesus não era Deus, mas um fiel cumpridor da lei (Torah).

Segundo Epifânio, que nasceu na Palestina, perto de Eleuterópolis, cerca de 315, faleceu em 403 d.C., sendo bispo de Chipre, existiu um evangelho dos ebionitas ou dos dozes. A data provável de sua composição é da segunda metade do século II. Este evangelho recebe ainda outras denominações como “Segundo Mateus” e “Segundo os Hebreus”.

Havia outra corrente ebionita, mais moderada, que apenas se distinguia dos cristãos ortodoxos pelas suas tendências judaizantes. O que restou deste polêmico evangelho, foram escritos fragmentários, porém o que proliferou foram textos imbuídos de ensinamentos gnósticos. É o que veremos a seguir.

2.2. HERESIAS PROVENIENTES DA FILOSOFIA GNÓSTICA

Para Farias:

o movimento de delineação do perfil de Jesus não pode deixar de ser estudado no contexto das chamadas ‘heresias’ que se estabeleceram entre os cristãos. Nos primeiros séculos da era comum surgiram vários movimentos filosóficos religiosos, os quais buscavam inspiração nas culturas gregas e egípcia (FARIAS, 2003, p. 13).

É incontestável que as interpretações de Jesus sofreram influência destes movimentos. Alguns merecem destaques

O Gnosticismo

O gnosticismo surgiu nos primeiros anos de cristianismo. Para Cairns “a tradição cristã associou a origem do gnosticismo com Simão Mago (Atos 8, acréscimo meu), a quem Pedro repreendeu duramente” (1995, p. 79).

Diante de muitas inquietações filosófico-religiosas da época, o Cristianismo surge como uma linha de princípio, cuja doutrina é a verdade. O gnosticismo também estava carregado de preocupações, porém, não se coadunava com a mensagem de Jesus.
Os gnósticos eram movidos segundo Farias pelo seguinte modo de pensar:

- A salvação é adquirida pelo profundo conhecimento (gnosi) teórico de si e, simultaneamente, de Deus;
- A ignorância é uma forma de autodestruição;
- A tarefa do ser humano consiste em buscar com muito esforço, a gnosi;
- Ao gnóstico, para obter a salvação, basta conhecer e crer que o filho de Deus veio a este mundo;
- Para ser perfeito o homem precisa fundir sua alma com a divindade e nisto consiste a gnosi;
- A natureza divina de Cristo transcende o sofrimento;
- O sofrimento não tem sentido;
- O ser humano sofre não por causa do pecado, mas por sua ignorância;
- A alma é prisioneira da matéria;
- Quem receber o espírito comunica-se diferentemente com Deus;
- A libertação do ser humano ocorre não por processos históricos, mas de forma interior;
- As mulheres atuavam no movimento gnóstico como mestra, profetisa, sacerdotisas (FARIAS, 2003, p. 14).

O primeiro Concílio de Constantinopla em 381 d.C., condenou o gnosticismo tachando-o de movimento herético. Para os cristãos, era difícil, até mesmo incômodo conviver com as doutrinas e práticas gnósticas uma vez que eles rejeitavam uma instituição eclesiástica. Isto é compreensível sabendo que a gnose leva o homem a relacionar-se diretamente com Deus. O primado de Pedro foi seriamente ameaçado e até mesmo alguns pontos da doutrina paulina como a pregação sobre pobres e sofredores. Estes não poderiam, segundo eles, conhecer Deus.

O pensamento gnóstico era bastante abstrato. Ficava pois, difícil para um judeu aceitá-lo, pois para ele o conhecimento vinha da Torá. Igualmente os cristãos viam-se em situação desconfortável, já que Jesus era a encarnação da Torá.

Porém, não foi fácil esquivar-se do gnosticismo. O grego era então, língua oficial, todo o modo de ser e pensar viu-se helenizado. Não dava para ignorar, fazia-se necessário combatê-lo.

Docetismo

O termo deriva de Doreo, que em grego quer dizer “aparência”. A doutrina doceta é oriunda do gnosticismo e floresceu no segundo século da era cristã.
Farias, elenca o tripé do pensamento doceta:

- O corpo de Jesus não era real, mas só aparência;
- Jesus não nascera de Maria;
- Jesus não podia morrer nem perecer (2003, p. 15).

Estes tópicos são suficiente para nos dar a dimensão do alvoroço naqueles conturbados tempos. Tanto grupos heréticos, como grupos ortodoxos combateram o pensamento doceta. Jesus havia nascido, sofreu e sua morte na cruz trouxera libertação e salvação. Era um absurdo a doutrina doceta.

Os docetas receberam influência do maniqueísmo, filosofia gnóstica dualista. Para eles, a matéria era a origem do mal, logo, Jesus não poderia ter-se tornado carne. Isto implica também que Deus não seria o criador, sendo o mundo constituído de matéria.

Outros Grupos Gnósticos

Existiram outras correntes gnósticas. Os grupos a elas pertencentes, aparecem, dentre outras, um evangelho de fundo gnóstico conhecido como Evangelho dos Egípcios. Este é um dos mais antigos deste gênero. Data da segunda metade do século II d.C., seu autor não é conhecido.

Neste evangelho grupos como:

- Encratitas
O termo vem do grego, enkrateia, que signifca “continência”. Os seguidores do encratismo condenavam o matrimônio, o uso do vinho e da carne. Para eles, o matrimônio era considerado “erva amarga” a ser evitada.
Clemente de Alexandria, escritor eclesiástico grego, nascido em Atenas por volta do ano 150 e morreu cerca no ano 200 d.C., conseguiu trechos do Evangelho do Egípcios:

Salomé perguntou: - até quando estará em vigor a morte?
O Senhor respondeu: - até quando vós as mulheres, continuardes a gerar filhos. Respondeu assim, não porque a vida seja má ou a criação perversa, mas para ensinar o que acontece segundo a natureza, pois a corrupção se segue forçosamente, à geração (STROMATA III, 6, 45: PG 8, 1149 A-B apud RAMOS, 2001, p. 45)

- Os Naassenos
Estes eram membros de uma seita gnóstica que venerava a serpente. O nome provém do hebraico nahas, que significa serpente. Há especulações de que seja um grupo remanescente do episódio bíblico narrado em Nm 21:9, que diz: “Moisés fez uma serpente de bronze, e a pôs sobre uma haste. Então quando alguém era mordido por uma serpente, se olhava para serpente de bronze, vivia”.
Eles indagam sobre o que é a alma, de onde provém e qual a sua natureza. As respostas eram procuradas no esoterismo e não nas Escrituras Sagradas. Os naassenos também usavam o evangelho dos egípcios, para eles a alma não possuía uma essência, pois mudava a forma, o modo.

- Os Sabelianos
Este grupo herético eram Asseclas de Sabellius, que viveu no século III, eles negavam com veemência a distinção das três pessoas divinas, considerando-as apenas modalidades da mesma pessoa.

Os sabelianos utilizavam o evangelho egípcio, outros escritos, também apócrifos, eram usados nas suas cerimônias e tinham um tom misterioso. Os escritos deste grupo eram ditos atribuídos a Jesus.

Muitos Padres da Igreja os combateram, dentre eles, Santo Epifânio que nasceu na palestina em 315 e faleceu em 403.

Ao analisar a maior parte dos movimentos heréticos que surgiram ao longo da história estiveram arraigadas num clima generalizado de insatisfação social e espiritual. Foi o que aconteceu nos primeiros anos de Cristianismo. As pessoas viviam sob o domínio do medo, da incerteza, pois o sistema teológico ainda estava sendo construído e o edifício doutrinal era ainda embrionário.

2.3. O GNOSTICISMO NOS DIAS ATUAIS

Nos tempos hodiernos, o gnosticismo ainda subsiste aos anos. Sua roupagem é bem distinta daquele movimento histórico, filosófico e religioso cristão que surgiu nos primeiros anos de Cristianismo. As bases filosóficas daquele movimento eram as da antiga gnose, com influxos do Neo-platonismo e dos Pitagóricos. Eles reivindicavam conhecimentos secretos, e, por isso, se consideravam superiores aos demais cristãos. Elementos da filosofia pagã, do Egito, Síria, Babilônia e Grécia, com elementos da astrologia e mistério das religiões gregas.

Nos dias atuais, os seguidores deste movimento, acreditam em um conjunto de tradições, que consideram o aspecto espiritual do universo, que podem levá-los à sua salvação, por ascensão ao “pleroma”.

Acreditam ainda, que o universo manifesto principia com emanações do absoluto, seres finitos chamados éons. Estes éons formam o pleroma, que para eles, é um plano arquetípico, abaixo do qual está o plano material manifestado.

Um deste éons, chamado Sofia deu à luz ao demiurgo (deus criador) que criou o mundo material, que é “mau”. Os gnósticos ensinam que a salvação vem por meio de um destes éons. Fala-se, segundo seus ensinamentos, o homem retornar ao uno por meio da ascensão ao pleroma.

Hoje existem milhares de gnósticos pelo mundo. Eles escrevem livros, fazem seminários internacionais para divulgação de seus conhecimentos e também estão presentes na Internet. Além dos elementos iniciais a gnose se identifica como uma corrente de pensamento esotérico, com o misticismo oriental, a Teosofia, a Cabala, o Rosa-crucianismo e a Maçonaria.

CAPÍTULO III
A RETOMADA DA DISCUSSÃO DOS LIVROS APÓCRIFOS COM AS DESCOBERTAS DOS MANUSCRITOS DE QUMRAN

As intempéries “heréticas” sofridas pelos primeiros cristãos, não foram barradas ou sanadas pela apologética patrística. Muito embora saibamos que “heresia” é uma questão de ponto de vista. Na verdade, o Cristianismo, bem como outras religiões tradicionais, nunca esteve a salvo de turbulências doutrinais. Sistemas filosóficos, como o Ceticismo e o Iluminismo; ideologias sócio-políticos como o Marxismo; ou descobertas científicas como, o Heliocentrismo, a Evolução ou teorias sobre a origem do universo, são responsáveis por abalos constantes ao longo da história no âmago doutrinal das religiões.

Porém, muitas surpresas ainda não haviam vindo à tona. Os evangelhos e outros textos apócrifos, antes proscritos do cânon, banidos das cerimônias e quase relegados totalmente à profissão de fé de muitos, reservavam enorme surpresa. E foi apenas na primeira metade do século XX que o mundo tomou conhecimento de uma das maiores descobertas arqueológicas de manuscritos.

O achado ocorreu em 1947, por dois pastores beduínos. Graças a Jum’a Muhammed e Muhammed Ahmed El-Hamed, estes rústicos pastores, uma biblioteca de 813 manuscritos redigidos pelos essênios entre 225 a.C. e o ano 68 d.C., vieram à tona. O material inscricional foi encontrado em 11 cavernas em Qumran próximo ao Mar Morto.

Este material guardava as mais antigas cópias do Antigo Testamento, calendários e textos da Bíblia. Teólogos, cientistas e lingüistas de várias universidades do mundo lançaram-se ao esforço colossal para traduzir aquelas relíquias manuscritas.

3.1. OS ESSÊNIOS

É possível conhecer o dia-a-dia dos essênios a partir do legado do historiador judeu Flávio Josefo (37-100 d.C.). Aos 16 anos, Josefo recebeu lições de um mestre essênio, com quem viveu durante três anos. (KENSKI, 2000, p. 58).

Os essênios acordavam cedo, antes do nascer do sol, faziam preces, trabalhavam durante 5 horas. Como eram vegetarianos, seu cultivo era de vegetais. Estudavam bastante. Eles gostavam muito de higiene. Tomavam vários banhos ao dia. A alimentação, para eles, era um momento sagrado. Este era um momento de silêncio e reverência.

Para Kenski (2000), os essênios não passariam de uma nota de roda pé da história, se não fosse a descoberta dos manuscritos do Mar Morto em 1947. antes, porém, em 1923, o húngaro Edmond Szekely conseguiu permissão para pesquisar os arquivos secretos do Vaticano, onde encontrou centenas de pergaminhos e papiros milenares, evangelhos jamais publicados e manuscritos originais de muitos santos e apóstolos.
Estupefato diante de tantas e tão valiosas raridades, Szekely sentiu-se atraído por uma obra em particular; era o evangelho essênio da Paz. O apóstolo João o teria escrito. Este livro narrava passagens desconhecidas da vida de Jesus, que é apresentado como o principal líder do essenismo. Szekely que não era tolo nem nada, não perdeu tempo. Traduziu o texto e o publicou em 4 volumes. A Igreja contra-atacou, excomungou-o, sem demora,
Segundo Kenski:

O surgimento da doutrina essênia aconteceu em tempos conturbados. Os judeus viveram sob dominação de diversos povos estrangeiros desde 587 a.C., quando Jerusalém foi devastada pelos babilônios, habitantes da atual região do Iraque. Por volta do século II a.C., o domínio era exercido pelos selêucidas, um povo grego que habitava a Síria. A cultura helenista proliferava e a tradição hebraica sofria fortes ameaças. Para recuperar o judaísmo, os israelitas acreditavam na vinda do Messias que chegaria ao final dos tempos para exterminar os infiéis e salvar os seguidores da Bíblia. A chagada do salvador poderia se dar a qualquer instante (KENSKI, 2000, p. 58).

Muitos destes judeus seguiam os preceitos religiosos no rigor da ortodoxia. Eles não concordavam com o comportamento mundano dos gregos, a presença de leprosos, cegos, surdos e cachorros perambulando pela cidade e pelos templos. Os essênios faziam parte destes insatisfeitos. Foi então que eles partiram para o deserto a fim de estudar as Leis (Torá), meditar e orar, bem longe do mundo impuro. Surgiu assim, o monastério de Qumran, um dos primeiros do Ocidente.

No ano de 68 o monastério de Qumran foi aniquilado pelo exército romano que devastou a Judéia e Jerusalém. Muitos foram mortos de forma brutal. Os que puderam fugiram para Massada, de onde não escapariam a novo ataque romano em 73 d.C..

O Evangelho Essênio da Paz, admite a existência do bem e do mal e ensina o valor virtudes como a justiça, a temperança, a coragem, a higiene e o perdão.
Atualmente milhares de pessoas no mundo se dizem adeptas da filosofia essênia.

3.2. A DESCOBERTA DOS MANUSCRITOS

Quando os pastores beduínos da tribo de Taamireh, encontraram aquelas cavernas, não tinham a mínima noção de quão valiosos eram aqueles manuscritos. No inícios eles imaginaram que aqueles jarros de barro poderiam conter algum tesouro que os deixavam ricos. Os jarros, de fato, continham um valioso tesouro. Não era ouro nem prata, mas o que eles tinham nas mãos era realmente inestimável: o grande pergaminho de Isaias, o comentário de Habacuc e o manual de disciplina. Isto sem contar com outras cavernas que ainda seriam exploradas.

Os manuscritos do Mar Morto continha, segundo Harry Thomas Frank citado por Romanini,

documentos de mil anos anteriores aos mais antigos textos conhecidos da Bíblia em hebraico, muitos dos quais escritos um século antes do nascimento de Jesus, sendo que um deles, pelo menos, talvez tenha sido composto quase três séculos antes da viagem de José e Maria a Belém (2002, p. 41).

Muitos destes pergaminhos, foram vendidos a preços de banana por aventureiros e colecionadores particulares. Felizmente, muito embora com bastante dificuldade, os manuscritos chegaram às mãos de estudiosos competentes.

3.3. O CONTEXTO HISTÓRICO DOS MANUSCRITOS DO MAR MORTO

Um eminente especialista de Harvard, Frank Modre Cross, utilizando-se da paleografia, analisa o contexto histórico no qual estavam inseridos os manuscritos. Ele aponta que os essênios eram de fato, a seita que habitavam Qumran.
Frank Cross citado por Shanks (1993), é categórico quando afirma:

Os manuscritos e as pessoas que os escreveram podem ser localizados com relativa certeza num amplo arcabouço histórico, em vista das comprovações externas proporcionadas por arqueólogos e paleógrafos. Só depois dos pergaminhos localizados num determinado período é que o historiador deve iniciar sua tarefa – difícil porque os dados internos dos manuscritos apresentam problemas historiográficos especiais, em virtude de sua linguagem esotérica. Fica difícil aplicar os métodos usuais de crítica historiográfica, sem excesso de subjetividade (SHANKS,1993, p. 22).

Depreende-se daí que muitos aventureiros “intelectuais” constituíram empecilhos à interpretação. Foi necessário, então, que estudiosos sérios e equilibrados tomassem a dianteira na análise série e cientifica daquele patrimônio inscricional.
Ainda segundo Frank Cross citado por Shanks,

os escritos de Qumran pertencem a três períodos de desenvolvimento paleográfico. Uma série muito pequena de manuscritos bíblicos se enquadra num estilo arcaico cujos limites vão de 250 a 150 a.C., aproximadamente; em seguida, vem uma grande quantidade de manuscritos de Qumran, bíblicos e não bíblicos, escrito num estilo que reflete o período asmoneu, ou seja, entre 150 e 30 a.C., no entanto, manuscritos cujo conteúdo se refere especificamente a assuntos da seita, muitos deles composta e compilados em Qumran, aparecem apenas por volta de meados do período asmoneu, isto é, em torno de 100 a.C.; finalmente, temos um conjunto relativamente grande de manuscritos herodianos, datado do período entre 30 e 70 A.D (SHANKS,1993, pp. 24, 25).

3.4. A RELAÇÃO DOS MANUSCRITOS DO MAR MORTO COM O CRISTIANISMO PRIMITIVO

Estudos sérios sustentam que há semelhanças doutrinárias entre os membros de Qumran e os cristãos primitivos. Muitos indícios apontam nesta direção, por exemplo, rituais e práticas comunitárias. James C. Vanderkam, analisa que há relação entre as refeições comunitárias de Qumran e a última ceia. Vanderkam, é professor de estudos do Antigo Testamento da Universidade de Notre Dame. Segundo este autor, os movimentos de apocalipsismo na vida cristã primitiva, estava centrada nos essênios (SHANKS, 1993).
Vanderkam mostra ainda paralelos entre os manuscritos e o cristianismo em três áreas:

Na linguagem teológica (especialmente em João), nos motivos escatológicos (em particular no modo como as escrituras forma interpretadas com relação ao seu tempo, mas também no entendimento de si mesmo como povo da nova aliança e sua perspectiva messiânica) e em sua ordem e instituições litúrgicas (batismo, refeições, rituais, propriedade comum de bens, liderança) (SHANKS, 1993, p. 22).

Todos estes elementos aproximam a seita de Qumran aos primórdios do cristianismo. Muitas noções de higiene, o ritual na refeição, a forma de se vestirem, a linguagem etc. O idioma, aliás, é muito importante. Sabe-se que o Novo Testamento foi escrito em grego. Jesus, porém, falava aramaico. Seus discípulos também utilizavam alguma língua semita. Todos os escritos de Qumran, eram em hebraico ou aramaico.
O manual da disciplina de Qumran orientava o comportamento e a conduta dos habitantes de Qumran.

3.5. A PRESENÇA DA INFLUÊNCIA DOS APÓCRIFOS NOS DIAS ATUAIS

Os textos apócrifos já passaram por todo tipo de adversidade. Desde acirradas disputas apologéticas durante a patrística, até intempéries do tempo, areia, vento umidade (eventual), sem contar com as proibições do Vaticano.
Não obstante, eles sobreviveram e chegaram até os dias atuais. Eles revelam muito sobre Jesus, apresentado mais próximo da vida de homens e mulheres, portanto mais humano.
Para frei Jacir Farias, “as questões de gênero, as relações de poder e até mesmo a espiritualidade estão colocados em termos mais ecumênicos e holísticos nos apócrifos” (2003, p. 51).

Outro ponto de novidade é auto-conhecimento que é valorizado nestes textos.
Com todas estas distinções do cristianismo tradicional, os apócrifos influenciam filmes milionários como Matrix e Beste-sellers, com o Código da Vinci. Eles caíram também nas graças da cultura pop.

A trilogia Matrix traz uma incomoda situação sobre o mundo e a realidade. Segundo os filmes o mundo talvez não seja como imaginamos, no Matrix Reloaded, descreve um futuro em que as máquinas mantêm a humanidade presa a uma enorme simulação da nossa realidade. O mundo no qual vivemos é uma ilusão, o universo é um programa de computar.

Em pelo século XXI, tudo isto soa absurda aos ouvidos de homens e mulheres acostumadas a ficção cientifica. No entanto, esta idéia de “realidade ilusória” já fazia parte da vida gnóstica do século II

Segundo Evangelho da Verdade, manuscrito encontrado em Nag Hammadi em 1945, citado por Kenski,

Os homens era ignorantes do que não podiam ver. Havia ilusões, como se eles estivessem mergulhados no sono e se encontrassem em pesadelo. Eles estavam fugindo, perseguindo outros, envolvidos em ataques, caindo de lugares altos ou voando mesmo sem ter asas. Quando acordam, eles não vêem nada. Ao deixar a ignorância de lado, não estimam suas coisas como sólidas, mas as deixam para como um sonho (EVANGELHO DA VERDADE apud KENSKI, 2003, p. 40).

Esta passagem inspira Matrix.

Já o Código da Vinci, best seller do escritor americano Dan Brown é considerado anticristão.

Dan Brown sustenta na sua trama ficcional que antes de 325, no concilio de Nicéia, Jesus não era considerado divino. Mesmo sendo um livro é divertido, que proporciona passeios por diversos períodos da história, ele está centrado em teorias conspiratórias. Faz uma intricada relação entre Templários, Ilumitti e a Opus Dei. Especulações também não ficam de fora (KENSKI, 2003).

Por exemplo, o autor, utiliza apócrifos para estabelecer uma linhagem de filhos de Jesus com Maria Madalena.

Verdade ou ficção, o que pretende-se com estes dois exemplos é mostrar que além de estudos acadêmicos sobre os manuscritos apócrifos, a cultura pop já assimilou-os também em milhões de pessoas no mundo estão se familiarizando com estas novas versões da história do cristianismo, sua doutrina e preceitos.

CAPÍTULO IV
A BIBLIOTECA DE NAG HAMMADI

Nag Hammadi é uma aldeia no Egito, conhecida como Chenoboskion na antiguidade, cerca de 225 km do Noroeste de Assuan, com aproximadamente 30 mil habitantes. É uma região camponesa.

Em dezembro de 1945, o camponês Muham Salmman, encontrou um grande pote de cerâmica, contendo treze códices de papiro escritos em Copta. Entre as obras encontradas estavam tratados gnósticos, três obras pertencentes ao Corpus Hermeticum e uma tradução parcial da República de Platão.

4.1. TEXTOS PRINCIPAIS DA BIBLIOTECA DE NAG HAMMADI

A seguir estarão elencados os títulos dos treze códices. Cada um deles possue características distintas. Vejamos como os textos da Biblioteca de Nag Hammadi foram organizados pelos estudiosos:

● Codex I
- Prece do apóstolo Paulo
- O Evangelho da Verdade
- Tratado sobre a ressurreição

● Codex II
- Evangelho de Tomé
- Evangelho de Felipe
- Exegese da alma

● Codex III
- Apócrifos de João

● Codex IV
- Evangelho dos egípcios
- A Sofia de Jesus Cristo

● Codex V
- Apocalipse de Paulo

● Codex VI
- Atos de Pedro
- A república de Platão

● Codex VII
- Apocalipse de Pedro

● Codex VIII
- Carta de Pedro a Felipe

● Codex IX
- O pensamento de Norea
- Testemunho da Verdade

● Codex X
- Marsanes

● Codex XI
- Exposição Valentiniana
- A Lógenes

● Codex XII
- Sentenças de Sexto
- Fragmentos

● Codex XIII
- Protenóia Trimórfica
- Sobre a origem do mundo

Os textos encontrados em Nag Hammadi foram também de enorme importância para o aprofundamento do estudo da Bíblia, do cristianismo e do desenvolvimento da doutrina cristã. Místicos de variados matizes, teólogos, filósofos, historiadores, e religiosos ficaram perplexos diante daqueles textos.

Por ora, pretende-se esboçar um pequeno comentário sobre dois destes textos: o Evangelho de Tomé e o Evangelho de Maria Madalena. Estes representam bastante a doutrina gnóstico dos trezes códices.

4.2. O EVANGELHO DE TOMÉ

O Evangelho de Tomé foi recebido com efusão por muitos estudiosos. Ele não apresenta uma história em linha reta e natural dos acontecimentos da vida de Jesus. Este texto é composto por 114 Lógios ou Ditos. Todas as sentenças são atribuídas a Jesus.

Data e língua. A relação desta obra foi em Copta, muito embora alguns estudiosos apontem que a língua original tenha sido grego ou siríaco. Sua data provável são os meados do século II.

Autor. A autoria é atribuída a Tomé. Crê-se que assim foi feito para aumentar seu valor e credibilidade. Didymas Tomas é o nome do autor.

O texto encontrado em 1945 inicia na seguinte forma: “São estas as palavras avultas proferidas por Jesus, o vivente, e escritos por Dídimos Judas Tomé. 1. Ele disse: aquele que descobre a interpretação destas palavras não provará a morte” (Evangelho de Tomé).
Este lógio demonstra o caráter metafísico e místico do Evangelho de Tomé, aqui não é o incrédulo dos Evangelhos canônicos. Tomé é o detentor de conhecimentos mais elevados, “esotéricos”.

O Lógio número 7, fala da relação que tem o alimento. O alimento se transforma naquele que o come: “disse Jesus: feliz o leão comido pelo homem, pois o leão se tornará homem. E maldito o homem comido pelo leão; ele se tornará leão” (Evangelho de Tomé). Ora, o leão representa a força brutal e o irracionalismo. O homem é feliz quando domina suas paixões e não quando se deixa devorar por elas.

O Evangelho de Tomé é muito rico em ensinamentos e conhecimentos espirituais. Ele também, traz novidade que deixa as igrejas cristãs, tanto protestantes, como católico em situação desconfortável. Estas igrejas, principalmente a católica, possuem, intrincados rituais e são instituições hierarquizadas e de certa forma, excludentes. O templo nestas religiões tradicionais é o lugar onde Deus se revela.

No Lógio 77, do Evangelho de Tomé, temos uma concepção bem diferente: “Disse Jesus: eu sou a luz, que está acima de todos. Eu sou o tudo. O todo saiu de mim, e o todo voltou a mim. Rachai a madeira –lá estou eu. Erguei a pedra – lá me achareis” Deus está; portanto, em toda parte. Essas palavras frisam a onipresença de Cristo.

Muito mais pode ser comentado e aprofundado no estudo deste Evangelho. Uma sabedoria inesgotável brota destas palavras. No entanto, este não é o escopo deste trabalho. Ele exige mais aplicação uma atenção mais acurada.

4.3. O EVANGELHO DE MARIA MADALENA

Maria Madalena ou Miriam de Mágdala, que em hebraico significa a “amada de Deus” é uma das figuras bíblicas mais fortes e polêmicas. Nos Evangelhos sinóticos ela é a pecadora (prostituta). Em Lucas 7:36-50, ela unge os pés de Jesus. Maria Madalena é o mito da pecadora redimida no mundo hebraico com cultura fortemente patriarcal a mulher não-virgem, não-mãe constitui o arquétipo feminino negativo por excelência.

Maria Madalena se contrapõe totalmente a Maria, mãe de Jesus, que é pura e santa.
De acordo com frei Jacir Farias, “os apócrifos do segundo testamento consideram Maria Madalena com o: Espírito de sabedoria; A personificação da gnose (conhecimento); a amada de Jesus; adversária de Pedro; ministra do evangelho; discípula de Jesus” (2003, p. 33).

Pedro mostra verdadeira ojeriza por Maria Madalena. O apócrifo de Filipe o mostra como cimento e misógino ao que parece Maria Madalena era uma líder comunitária, uma discípula de Cristo. No entanto, o contexto cultural e religioso impregnado de machismo, no qual Maria estava inserida, não a aceitavam como mulher de virtude e sabedoria.
Maria ampara a mãe de Jesus. Acompanha a agonia do calvário. Ela é portadora do anúncio da ressurreição.

No Evangelho de Maria Madalena 7:1-10 citado por Farias, lê-se:

(...) o que é matéria? Ela durará sempre? O mestre respondeu: tudo o que nasceu, tudo o que foi criado, todos os elementos da natureza, estão estreitamente ligados e unidos entre si. Tudo o que é composto se decomporará, tudo retornará às suas raízes, a matéria retornará às origens da matéria. Que aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça (MM 7:1-10 apud FARIAS, 2003, p. 20).

Neste texto nota-se a profundidade dos ensinamentos que Maria repassa aos discípulos. O texto é despertador. Retira as pessoas da letargia, do sono da ilusão, mostrando que nada é eterno.

Muitos são os textos controversos, porém carregados de significado e sabedoria. Seu evangelho chega a afirmar que o pecado não existe:

Pedro lhe diz: já que tu te fazes o intérprete dos elementos e dos acontecimentos do mundo, dize-nos: o que é o pecado no mundo? O mestre diz: não há pecado. Sois vós que fazeis existir o pecado quando agis conforme os hábitos de vossa natureza adúltera: aí está o pecado. Eis porque o bem veio entre vós; ele participou dos elementos de vossa natureza a fim de reuní-la a suas raízes (MM 7: 11-22 apud FARIAS, 2003, p. 21).

Vê-se que este Evangelho é deveras valioso. A comunidade que utilizava este evangelho tinha uma compreensão bastante elevada do que era pecado e o que não era. Eles sabiam que a sua natureza adúltera é que fazia com que o pecado existisse.Frei Jacir Farias explica que “adulterar é deformar. Jesus dizia que o modo de olhar pode adulterar a realidade” (2003, p. 47).

Segundo outro autor Maria Madalena é a,

alma feminina, amante de Cristo, irmã, esposa, nova vênus, nova pandora, virgem como Diana, sábia como Minerva (...) imagem do amor em sua dimensão terrena, mística e espiritual, do feminino em toda sua gama de afetos e expressões, Madalena expande a luz do amor sobre o mundo (MOSCO, M. I SETTE VELI DELLA MADDALENA. FMR 43, 19986, 134 apud FARIAS, 2003, p. 48).

Artistas plásticos já retrataram Maria Madalena como pecadora, penitente, bela, formosa, velha, solidária, que unge Jesus, que ampara Maria a mãe de Jesus, que anuncia o ressuscitado e acompanha Jesus em sua agonia.

O Evangelho de Maria Madalena bem como a própria pessoa de Madalena constitui, seguramente, um dos mais ricos, profundos, sábios e assombrosos livros apócrifos. Seus ensinamentos deveriam ser adquiridos nos dias atuais.

CONCLUSÃO:

Os escritos apócrifos são polêmicos em sua essência. No entanto, a sua importância para a história do Cristianismo é inegável. A influência sobre as práticas e costumes na cristandade podem ser notados, e, sua aceitação atual, fará com que sua marca torne-se indelével.

A descoberta dos Manuscritos de Qumran e os códices de Nag Hammad revitalizaram o interesse pela escritura apócrifa e foi impossível evitar novas discussões em torno destes textos. Compreendeu-se que o Cristianismo possui várias faces. A doutrina original passou por desdobramentos que resultaram em ramificações de matizes inusitadas. Este processo tornou a religião, que então nascia, profícua, rica e profunda.

A Igreja, após instituir ritos, dogmas e hierarquizar sua estrutura, tirou o oxigênio espiritual, esterilizou os mistérios que permeavam a vida do homem comum, sob a roupagem da oficialidade. Não obstante, isto não estancou o mar de criatividade que sempre aflora na alma dos místicos.

Os livros apócrifos são uma fonte da riqueza espiritual que acompanha o homem simples que em sua fé ingênua, porém sincera, e por que não dizer verdadeira, mantém uma vida de dedicação a Deus.

Atualmente, teólogos e filósofos da religião se debruçam em estudos sérios nos textos apócrifos. A fascinação por esta literatura transpõe o limite acadêmico. A cultura pode também buscar inspiração neles. Filmes milionários como Matrix e a Paixão de Cristo; livros Best-Sellers, 
como O Código Da Vinci, têm como base estes escritos.

Entender o sentido e compreender a mensagem dos livros apócrifos é fundamental para reencontrar o caminho, a orientação e quiçá a intenção de Cristo em comunicar-se com o homem.


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